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O mundo está “dependente” do Facebook?

Descobrimos como o mundo virtual gira em torno de uma só empresa

6 de outubro de 2021
Apagão mostrou que o mundo está “dependente” do Facebook
No dia 4 de outubro, a Facebook Inc. sofreu um apagão mundial que durou mais de seis horas e comprometeu os serviços das plataformas sociais que detém: Facebook, Messenger, Instagram e WhatsApp. Uma anomalia que a empresa entretanto justificou deverse a um defeito numa mudança de configuração, sem adiantar mais esclarecimentos, depois de ter divulgado um pedido de desculpas aos utilizadores. Desculpas aceites, o mundo regressou às redes sociais depois de ter experienciado um dos períodos mais longos — senão o mais longo — sem acesso. A falha, que fez perder seis mil milhões de dólares a Mark Zuckerberg, desnudou o controlo monopolista que a gigante tecnológica exerce não só no mercado, mas também nas actividades diárias da sociedade.
Suspeita-se que o apagão esteja relacionado com o protocolo BGP, que orienta o computador no caminho labiríntico da Internet até chegar ao seu destino — o site do Facebook —, e cuja vulnerabilidade faz com que uma pequena alteração tenha um grande impacto. “O que eles fizeram foi apagar essa informação para todos os domínios do Facebook. Ou seja, nenhum computador sabia como chegar aos computadores do Facebook. É uma coisa extraordinariamente rara e absurda”, considera Carlos Martins. O autor do blogue especializado em tecnologia Aberto até de Madrugada acredita que este desaparecimento momentâneo causou um “estado de pânico” em milhões de pessoas que, sem acesso, até temiam a queda da Internet. “Para muitas pessoas, a Internet é sinónimo de Facebook, Instagram e WhatsApp”, aponta, acrescentando que também há quem dependa dos serviços de pagamentos e login em vários sites que o Facebook disponibiliza.

Tito de Morais, autor do site Miúdos Seguros na Net e membro do capítulo português da Internet Society, acredita que a força do hábito impediu as pessoas de recorrerem a canais alternativos. “Torna evidente que a esmagadora maioria das pessoas está presa a estas plataformas, e não a outras”, observa, acrescentando que isso atribui à organização “um poder brutal” que pode ser limitativo da liberdade e até pôr em risco a própria democracia.

Mark Alfano concorda. É professor na Universidade Macquarie, na Austrália, utiliza ferramentas da psicologia e ciência da computação para explorar tópicos nas humanidades digitais e também escreve frequentemente sobre o impacto das redes sociais no dia-a-dia. Em resposta escrita ao PÚBLICO, compara os 70% de participação no mercado do Facebook e do Instagram com os 14% do Twitter, o concorrente mais próximo. “Quando uma única empresa — especialmente uma em que a maioria das acções com direito a voto pertencem a uma só pessoa, Mark Zuckerberg — controla efectivamente uma parte crítica de uma infra-estrutura global, problemas como este estão fadados a acontecer”, defende.

Para José Tribolet, especialista em engenharia de sistemas e telecomunicações, “nada é saudável se tem só uma fonte de fornecimento”. No seu entender, a dependência de fornecedores críticos, como em qualquer outra área comercial, traduz-se na falta de resiliência. “Quando tirámos vantagens da chamada globalização, não percebemos também os riscos que estávamos a correr. Estamos criticamente dependentes deles, e quando há um problema toda a cadeia vai abaixo”, critica o fundador do INESC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores: Investigação e Desenvolvimento em Lisboa).

Mark Alfano teoriza duas possíveis soluções: uma forte regulamentação ou a nacionalização da empresa. “No caso do Facebook, a nacionalização não parece viável porque está presente praticamente em todos os países do mundo. Para a Europa, pelo menos, regulamentações aprimoradas, além do Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados, podem ser um bom primeiro passo.”

A estratégia do Facebook tem consistido na compra da concorrência antes que ela se torne uma ameaça séria. Neste momento, a empresa tem em curso um litígio com a Comissão de Comércio Federal dos EUA, que pede a venda do Instagram e do WhatsApp. O regulador acusa o gigante liderado por Zuckerberg de monopólio ilegal.

Tito de Morais não tem dúvidas de que esta revelação pode incentivar ainda mais a regulamentação das redes sociais. Ou, pelo menos, que “a posição dominante do Facebook no mercado possa ser considerada monopolista ao abrigo da lei americana, à semelhança do que já aconteceu com a Microsoft e a Google”.

“Os reguladores já têm impedido certos negócios, mas o Facebook ainda conseguiu acumular muitos serviços que se calhar não deveria ter comprado, como o WhatsApp e o Instagram, que não faz muito sentido estarem todos debaixo do guarda-chuva deles”, diz, por sua vez, Carlos Martins.

Fonte: Inês Moura Pinto em Público - Edição Lisboa

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